terça-feira, 12 de outubro de 2010

Depoimento de uma Suicida

Oi, meu nome é Christine, nasci no dia 11 de setembro de 1983, fui criada como princesa, sempre pude ter tudo aquilo que eu quis. Meus pais nunca me negaram nada, porém sempre fui muito religiosa, acompanhava minha mãe em missas, ela era muito fiel às leis de Deus. Perdi meus pais aos 14 anos em um acidente de automóvel, eu fiquei muito abalada com tudo, entrei em depressão. Após o ocorrido, fui morar com meus tios, continuei a freqüentar a igreja, pois tudo lá me trazia conforto após a perda de meus pais, e além da igreja e a escola tive que fazer acompanhamento psicológico. Por mais de ano me isolei do mundo, mesmo indo a escola tinha poucos amigos, sempre fui uma ótima aluna. Aos 15 dei meu primeiro beijo, sei que foi meio tarde, mas foi em um garoto que eu amava, porém ele apenas me usou como forma de ciúmes diante minha melhor amiga, ou melhor, uma das minhas únicas amigas. Após aquele fato, comecei a aproveitar a vida, prometi a mim mesma, jamais iria me apaixonar novamente. Isso até conhecer Eduardo, ou, Duda como chamávamos, um lindo garoto, ele tinha olhos claros, era perfeito. Novo em nossa escola, não tinha amigos, eu sempre muito dedicada, fiz questão de lhe apresentar a galera.
Eu era muito atraente, em alguns dias nós estávamos ficando. Mesmo contra minha vontade, diante lembranças do outro garoto, eu o amava. Começamos namorar após algumas semanas, ele era muito dedicado ao namoro, até me acompanhava nas missas aos domingos, dês que eu lhe deixasse jogar futebol com os amigos no sábado. Com um mês de namoro, ele conheceu meus tios, eles o adoraram, confiavam muito em mim e eu nele. Eu já tinha meus 17 anos, não via à hora de completar meus 18. Para mim aquilo era um marco, entre a infância e a vida adulta. Sempre acompanhada por Duda, ia à igreja. Após a missa, tomávamos um sorvete, ou saiamos com nossos poucos amigos, porém não perdia um domingo. Nós todos os dias nos encontrávamos na escola, éramos colegas de classe. Formei-me sem reprovar ao menos um ano, na formatura, apesar de triste pela falta de meus pais, estava feliz, pois estava realizando o sonho de minha mãe. Alguns dias após a formatura, nós fomos passar alguns dias na casa da praia dos meus tios, a qual pertenceu a meus pais. O calor era intenso, tínhamos planos de passar a virada de ano por lá. Estava Eu, Duda e mais um casal de amigos, não podia esquecer a Rafaela a chata da minha prima, foi junto, por sinal ela não se deixava esquecer. A Rafaela era muito mimada, tinha lá seus 15 anos, se os mimos não bastassem, ainda tinha uma quedinha pelo Duda, na real era um tombo, e não tinha vergonha de demonstrar isso a todos na casa.
Duda, sempre muito fiel resistia suas provocações, mesmo assim as férias que eram para ser tudo, foi um nada. Sempre que rolava um Love entre os casais, Rafaela vinha com uma piadinha idiota para empatar. Ficamos apenas quatro dias, voltamos no dia 31 de dezembro, após a volta, irritada com minha prima. Fui passar a virada de ano na casa de uma amiga, o melhor era que, eu estava com Duda, sem a Rafa para encher, foi tudo perfeito.
Naquele ano, eu queria dar um tempo aos estudos, apenas queria estudar para o vestibular do próximo verão e aproveitar meu namorado. Minha vida se tornou um tédio, o Duda estava fazendo faculdade, eu passava o dia em casa, virei uma viciada em internet. Os meses foram passando e nosso namoro esfriando. Duda não tinha mais tempo para mim, e eu tempo demais para ele. Rafaela estava fazendo o 2º do ensino médio, todo dia me enchia de perguntas sobre, Química, Física, Matemática... Às vezes eu me perguntava será que tem alguma matéria que ela entende? Nunca me neguei a ajudar, mas dificilmente, ela conseguia entender. Eu acabava fazendo as lições dela. Era isso que ela queria.
Comecei freqüentar a igreja também durante a semana, comecei a me confessar pelas coisas mais banais, Discutir com minha prima, me negar lavar a louça, E coisas do tipo, o padre adorava minhas visitas.
O inverno foi chegando, o frio aumentando e eu comecei a pousar na casa do Duda, mesmo em dias de semana. Muito carinhoso, dormindo na mesma cama que eu, ainda respeitava a minha virgindade. Sempre achei muito meigo, ele entender o fato de eu querer casar virgem. Nunca nem ao menos questionou esse meu desejo.
No inicio de agosto, minha tia e eu começamos a organizar minha festa, de aniversário, era para ser um tudo com DJ, Bufê e tudo mais. Lutamos para conseguir tudo a tempo, mas lá estava minha festa, eu estava deixando de ser uma menina e me tornando uma mulher.
Foi bem no dia do meu aniversário. Era uma terça-feira, o dia foi péssimo, lembro que teve o atentado nos Estados Unidos, foi um Back logo pela manhã, eu nem sabia que o dia estava apenas por começar. Minha tia estava abalada com aquilo, até comentou em adiar a festa, eu não quis, pois era uma promessa de meus pais, que no dia do meu aniversário de 18 anos, iria ter a festa mais linda que podia imaginar. E assim foi estava tudo perfeito, DJ, Bufê, bebidas, e ainda, tinha o Duda ao meu lado... A casa dos meus tios era enorme, não teve nenhum problema quanto a espaço, lembro que Duda e eu recebíamos os convidados na porta, tiveram muitos convidados dezenas, que lembro não faltou ninguém. Meus amigos a maioria mais velhos me zoavam, pois agora eu deveria aprender a me portar como uma mulher.
A festa rolava mil maravilhas champanhe à vontade, a musica era ótima, nada podia estragar minha festa. Lá por tantas, Duda disse que iria ao banheiro, e saiu, porém não voltava, lembrei que a Rafaela não havia decido para festa. Subi as escadarias para chamá-la, e iria aproveitar para esperar Duda frente ao banheiro... Fui direto ao quarto da Rafaela, aconteceu o pior, peguei o fragrante, eles transavam loucamente, com maior intimidade, não acreditei, Duda aquele cara que eu amava que sempre me respeitou ao estremo, e nunca se opôs ao fato de eu casar virgem, ali com aquela ninfomaníaca. Parece que ainda vejo diante meus olhos a cena, ela sentada em seu colo, pulava como um animal enfurecido, entre beijos, ela gemia muito. Neguei-me a qualquer tipo de conversa com os dois, pedi ao Duda para se retirar da casa, ele gritando dizia que estava bêbado, que foi seduzido pela garota, pensei: Que canalha, a culpa é sempre da bebida. Para a Rafaela, eu apenas disse que depois conversaríamos. Voltei para festa, aleguei a todos que Duda teve um mal súbito, por causa da bebida ele teve que se retirar. Despedi-me de todos normalmente como se nada tivesse acontecido, sempre sorridente cumprimentei todos na saída, a festa tinha acabado cedo, a grande maioria teria que trabalhar ou estudar no dia seguinte, por volta das 23h30min, todos já tinham ido.
Voltei a subir para o quarto de Rafaela, ela estava sozinha banhada em lagrimas, dizia ter sido seduzida pelo Duda, estavam ficando desde as férias, que ele iria acabar tudo comigo, após o aniversario e ficaria com ela. Alguns dias matavam aula, se encontravam na casa do Duda, pois, ela sempre estava vazia e ninguém iria incomodar. Para mim aquilo bastava, não queria ouvir mais nada.
Sai atordoada dizendo que depois daquilo não precisava saber mais de nada, tranquei-me em meu quarto, Rafaela nem se quer saiu do dela, meus tios estavam ainda lá em baixo finalizando tudo com o Bufê. Sem pensar em nada, eu fui até o banheiro do quarto, peguei uma navalha da gilete que costumava usar para depilar-me. Decidida e rezando muito, sentei na cama. Com a navalha dentre os dedos, cortei meus pulsos, queria ir para junto de meus pais e deixar tudo aquilo.
Na verdade nada disso aconteceu, meu corpo foi encontrado após algumas horas, sobre a cama, lavado em sangue junto aos lençóis, estava o corpo da menina inocente que acabará de completar 18 anos. Vi minha família chorando sobre meu corpo, meus tios se perguntavam o porquê. Minha prima chorando muito pedia desculpas. Foi ai que minha alma foi levada a julgamento, foi quase uma semana de julgamento, diante vários anjos fui julgada. E o veredicto foi tal. Por ser uma pessoa religiosa, não fui aos infernos e por ter cometido suicídio minha entrada aos Céus foi negada, fui julgada a ficar na terra como uma alma penada? Ou seria um anjo desgarrado?... Após minha volta, continuei a acompanhar a minha família, tive contato com muitas outras almas... Todas depressivas vendo o mundo sem elas. Eu fui vitima de mim mesma, naquele dia 11 de setembro.
Após um ano, eu sem poder fazer nada, sofria muito vendo tudo aquilo, minha família sem mim, se explicava em meros conhecidos. Eles ainda viviam naquela mesma casa, pois meu tio perdeu o emprego e se perdeu no alcoolismo, minha tia ainda trabalha como juíza criminalista, mas após vários erros em julgamentos corre o risco de ficar sem o direito de julgar, Duda foi morar na Inglaterra, após tudo aquilo foi estudar lá. A Rafaela, era sim culpada de tudo. A verdade, era que, com ajuda de um amigo meu, que embebedou o Duda armou a cena. Ele embriagado não resistiu à tentação caindo na cilada. Até hoje não sei se ele realmente me amava. A Rafaela não cansa de se culpar por minha morte, hoje está viciada em cocaína, abandonou os estudos, está andando com uma galera barra pesada e até cometeu pequenos furtos para sustentar seu vicio.
Após aquele 11 de setembro tive mesmo uma divisão, entre a vida e a morte .
Aprendi em meu aniversário, que o mundo mudaria sua rotação sem mim.
Até hoje quero acordar deste pesadelo ou terminar meu castigo...

Um comentário:

  1. Putz, narrativa muito legal esta! Gostei do conto pós morte!
    escritordanoite.blogspot.com

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